A ciência em risco: os impactos da interrupção unilateral da cooperação internacional dos EUA no controle de doenças infantis
- Antonio Carlos Faustino

- 23 de abr.
- 4 min de leitura

Introdução
Nos últimos meses, a comunidade científica internacional foi surpreendida por uma decisão que causou grande apreensão: os Estados Unidos, de forma unilateral, interromperam programas de cooperação com diversos laboratórios e universidades ao redor do mundo. Essa medida, tomada sem consulta ou aviso prévio a parceiros tradicionais, ameaça o controle de doenças infantis graves, como poliomielite, sarampo e febre tifoide, especialmente em países em desenvolvimento, incluindo os das Américas.
A interrupção de parcerias científicas, sobretudo em áreas como a epidemiologia, imunologia e virologia, representa um retrocesso nos esforços de saúde global. Este artigo analisa os impactos dessa decisão, os riscos à saúde infantil, as reações da comunidade científica e os caminhos possíveis para a recomposição da confiança internacional.
Contexto: a liderança histórica dos EUA na cooperação científica
Historicamente, os EUA sempre foram protagonistas em projetos científicos multilaterais. Desde a criação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em 1946, o país liderou diversas frentes no combate a pandemias e doenças endêmicas. A parceria com instituições como a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a OMS e centros de pesquisa da América Latina sempre foi vital no compartilhamento de dados, desenvolvimento de vacinas e elaboração de estratégias de contenção.
A decisão atual, adotada durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, rompe com essa tradição de diplomacia científica, intensificando uma tendência já observada em seu primeiro governo (2017–2021), marcada por políticas nacionalistas e restrição a acordos internacionais.

Laboratórios e universidades afetadas
Entre os centros impactados estão universidades da Colômbia, México, Argentina e Brasil. A Fiocruz, referência em imunologia, relatou suspensão de intercâmbios técnicos e atrasos no recebimento de insumos laboratoriais compartilhados. Instituições como a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e a Universidade de São Paulo (USP) também sofrem com a perda de cooperação, que afetava estudos sobre a zika e outras doenças tropicais.
Nos EUA, pesquisadores do CDC e do Instituto Nacional de Saúde (NIH) manifestaram preocupação com o enfraquecimento da rede global de monitoramento de doenças. A própria Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) classificou a medida como “um risco desnecessário à saúde pública global”.

Impactos na saúde infantil
A suspensão de cooperação ameaça diretamente programas de vigilância de doenças como o sarampo, que vinha sendo combatido com eficácia através de campanhas internacionais. Com a interrupção da troca de dados e a ausência de protocolos coordenados, regiões vulneráveis podem se tornar focos de surtos.
A poliomielite, por exemplo, encontra-se próxima da erradicação global, mas a fragilidade nos sistemas de vigilância pode gerar novos casos. A ausência de cooperação técnica dos EUA, que detêm tecnologia de ponta, retarda a atualização de vacinas e testes de diagnóstico.
O papel da diplomacia científica
A diplomacia científica é uma ferramenta poderosa de influência e cooperação internacional. Ela permite que países estabeleçam laços de confiança mesmo em contextos de rivalidade política. Ao romper com essa lógica, os EUA não apenas prejudicam o controle de doenças, mas também abrem espaço para que outras potências, como China e Rússia, ocupem esse vácuo.
Em resposta, a União Europeia anunciou um fundo emergencial para manter ativa a cooperação com centros latino-americanos. A China, por sua vez, aumentou os investimentos em laboratórios da Bolívia e do Peru. O Brasil também iniciou tratativas com o Instituto Pasteur, da França.
Reações e mobilização internacional
Organizações como a OMS e a OPAS emitiram notas oficiais condenando a medida. A Iniciativa Global para a Saúde Infantil (GHI), em Genebra, lançou uma carta aberta assinada por mais de 3.000 cientistas, exigindo a retomada da cooperação.
Na América Latina, ministros da saúde do Mercosul e da CELAC articularam uma frente de coordenação científica sem a mediação dos EUA. O objetivo é buscar alternativas regionais e garantir autonomia em pesquisas de vacinas e insumos.
Alternativas e caminhos possíveis
Apesar dos prejuízos imediatos, a crise pode gerar efeitos positivos a longo prazo. O fortalecimento de redes sul-americanas de pesquisa, o aumento da independência tecnológica e o investimento em universidades locais ganham destaque como prioridades políticas.
A curto prazo, é urgente que os países afetados intensifiquem a cooperação entre si e com blocos como a União Europeia. Também é fundamental que a sociedade civil e a academia exerçam pressão política junto aos EUA, para que reconsiderem sua posição.
Conclusão
A decisão unilateral dos EUA de suspender a cooperação científica internacional ameaça os avanços conquistados nas últimas décadas no controle de doenças infantis. Mais do que uma medida administrativa, trata-se de um gesto com profundas implicações éticas, sanitárias e diplomáticas.
A saúde infantil não pode ser refém de disputas geopolíticas. A ciência deve permanecer como um dos pilares da colaboração entre nações, especialmente quando vidas estão em risco. Resta agora à comunidade internacional demonstrar resiliência e fortalecer redes alternativas que garantam a continuidade dos avanços científicos, mesmo diante do isolamento de uma potência.
Referências:
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Relatório técnico sobre vigilância de doenças infecciosas na América Latina. Washington: OPAS, 2024.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Health Security Report. Geneva: WHO, 2023.
FIOCRUZ. Nota oficial sobre suspensão de cooperação internacional com os EUA. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2025.
AAAS. Statement on Scientific Cooperation and Global Health Risks. Washington, DC: American Association for the Advancement of Science, 2025.
GHI (Global Health Initiative). Open Letter on Scientific Collaboration. Geneva: GHI, 2025.
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